À sombra de uma mentira por Alex Marwood

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A primeira obra À sombra de uma mentira ou The wicked girls (título em inglês, original) de Alex Marwood é assustadora. A verdade é que a própria história da autora é incrível, já começa por aí. Ela, de acordo com a biografia, seria uma inglesa que teria sido criada por lobos e aprendido habilidades incríveis como visão noturna e a comer apenas carne crua, e depois teria estudado jornalismo. Mas, na verdade Alex Marwood seria um pseudônimo para a verdadeira autora que é a Serena Mackesy, que era uma jornalista e escritora de comédias românticas. Segundo ela, teria começado a matar muitas pessoas com as suas histórias, e por isso precisou mudar as suas produções para o gênero de romance policial, com muito suspense, terror, e thriller psicológico. A história dela, por si só, já muito interessante. E o livro, então! Até o Stephen King comentou sobre eles, dizendo que são aterrorizadores. Aí, precisei dar uma olhada, né?

Ela a conduz por entre as pesadas cortinas de veludo que dividem o lobby do salão principal. O salão está apertado e lotado, iluminado por um tom de vermelho sinistro; olhares familiares, mas não exatamente, congelados, fitam-na, em um misterioso outro mundo, os olhos em branco e bocas congeladas para sempre na iminência das palavras. Mais quadros, cada vez mais selvagens agora que tinham passado pelo hall de entrada: um homem deitado numa maca, uma expressão de grito no rosto; um camponês cambojano segurando um saco plástico – listrado, do tipo que se encontra nas lojas em todos os lugares – sobre o rosto de um homem trajando um terno; soldados da Primeira Guerra Mundial chafurdando na lama e no arame farpado. “A DESUMANIDADE DO HOMEM PARA COMO O PRÓPRIO HOMEM” diz a faixa esticada de parede a parede. E tudo por uma taxa de entrada de 9,95 libras.

Assim, o enredo se desenvolve a partir de uma cidade na Inglaterra em 1986 que duas meninas de 11 anos, a Jade e a Bel, a primeira filha de um criador de porcos com seis irmãos, e a segunda enteada indesejada de um milionário. As duas se conhecem uma manhã, na cidade onde moram e passam um dia juntas, a questão é que ao final dele são acusadas de assassinato, e um dos mais brutais, de uma menina de 4 anos. A partir disso, as duas são enviadas a um centro de correção juvenil e nunca mais se veem, até 25 anos depois. Quando ocorrem assassinatos na cidade onde Bel mora, agora conhecida como Amber, e gerente do parque de diversões da cidade, Jade precisa ir até lá, fazer a cobertura dos acontecimentos, já que se torna jornalista, e agora conhecida como Kirsty. A questão é que esses assassinatos conectam as duas muito mais do que imaginam. 

A evolução dos personagens nessa obra é construída de uma forma sensacional, pois primeiro, nós nos cativamos pelas personagens principais, que ao mesmo tempo, nos enojam. E conforme vamos lendo os eventos que acontecem na cidade, é quase impossível prevê-los, apesar de que, se prestarmos muita atenção a pessoa que comete os assassinatos aparece quase no final do livro, e é impossível não ter um choque antes da revelação. É incrível como a história é criada através desses acontecimentos, e conecta passado, 1986, e futuro, 2011. Mas, o melhor é a percepção que temos da realidade, que na verdade ela é muito cruel, e que nem sempre podemos ter um final feliz. E o toque das mentes doentias que aparecem em outros personagens, também nos cativam. Nos faz perguntar se qualquer um pode se tornar um assassino da noite para o dia.

A leitura é rápida, pois apesar do livro ser mediano na quantidade de páginas, é impossível não enganchar na leitura a partir de certo ponto. Eu terminei na madrugada de uma quinta-feira, pois não consegui parar até terminar a última página. Claro, me arrependi no outro dia, mas valeu a pena.


Além de tratar dos assuntos já comentados, a obra traz uma análise da sociedade que julga e aponta o dedo, ainda mais nos dias tecnológicos de hoje, do jornalismo e a mídia como armas psicológicas da massa, de grandes proporções (muito mais a questão do poder da mídia que explora qualquer forma de entretenimento, hoje, inclusive a morte e a dor das pessoas), da humanidade que existe em cada um, e também da violência contra a mulher, principalmente, contra as meninas. E como nós mulheres somos pré-avaliadas pela sociedade machista em que vivemos, e como realmente muitas mulheres ainda são tratadas nos dias de hoje. Traz também uma reflexão de nós mesmos frente a essa sociedade, e sobre a delinquência juvenil, girando em 360 graus nossas percepções sobre esses assuntos. 

Indico esta obra para quem quer um verdadeiro thriller psicológico que puxa para um lado muitos mais aterrorizador que existe na própria humanidade, e acho que isso que traz mais medo, que na verdade esse lado sombrio pode estar dentro da gente também, se é que já não foi visto. E para quem quer uma leitura muito enriquecedora, em termos de reflexão social e humana. Mas, já vou avisando que não é para qualquer um, pois o livro tem verdades que nem todos estão preparados para enfrentar.

O que poderia fazer? Como posso ajudar? A sociedade é um problema, eu sei. Eu sei. A sociedade. Mas, vamos enfrentá-la: a sociedade realmente não se importa com quem culpa, desde que haja algum culpado.
Obrigada Editora Bertrand Brasil (Grupo Editorial Record) pelo envio do exemplar!


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