Pompeia: a vida de uma cidade romana por Mary Beard

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Mas, a morbidez não é tudo. O impacto causado pelas vítimas (estejam elas totalmente recompostas em gesso ou não) também provém do sentimento de contato imediato com o mundo antigo que elas oferecem, das narrativas humanas que nos permitem reconstruir e das escolhas, decisões e esperanças de pessoas reais com as quais podemos ter empatia através dos séculos. Não precisamos ser arqueólogos para imaginar o que seria abandonar nossas casas levando só o que conseguíssemos carregar.

A obra de Mary Beard, é especial, em todos os detalhes. Eu sempre gostei de livros de história diferentes, que contam o que aprendemos na escola com uma perspectiva totalmente nova. E Pompeia é uma dessas obras encantadoras. Já a capa, nos ganha de vez, mas o que realmente chama a atenção são as gravuras, e desenhos explicativos, fazendo você mergulhar na história.

O livro fala sobre a história da cidade de Pompeia, aquela que foi devastada em 79 d.C. pela erupção do vulcão Vesúvio. A questão é que se tornou um dos maiores achados arqueológicos da humanidade, e hoje pode ser visitada como um museu, que nos mostra como era a vida naquela época. Com o relato de Beard, é possível visitá-la sem sair do lugar, e entender como toda a história, econômica, política, religiosa e social dessa cidade foi reconstruída por inúmeros trabalhos arqueológicos e de longas pesquisas.


A obra é uma viagem ao passado, começando pela erupção do Vesúvio e os corpos achados com expressões mais reais da arqueologia e seus objetos, e então, expandido para todos os temas que uma cidade poderia revelar, desde a economia e a política, ao sexo, a religião e a vida íntima de pessoas reais que viveram na cidade. Pelos grafites e propagandas feitas nas paredes (da época), desenhos, obras expostas nas casas, mansões, casas de banho, prédios públicos, objetos de decoração e de trabalho, templos religiosos e todas as outras peculiaridades de uma cidade única como Pompeia, que foi deixada às pressas e parou de forma abrupta no tempo, nós podemos entendê-la (talvez não da forma como realmente era, mas da especulação de uma história), e criar grandes histórias a partir dela, como muitos inspirados já fizeram.

É verdade que a cidade nos permite vislumbrar mais vividamente pessoas reais e suas vidas reais do que qualquer outro lugar do mundo romano. Encontramos amantes desafortunados (‘Sucesso, o tecelão, está apaixonado por uma garçonete chamada Íris e ela nem liga’, diz um grafite rabiscado numa parede) e gente que faz xixi na cama sem pudor (‘Fiz xixi na cama, fiz besteira, não minto/ Mas, caro locador, não havia penico’, alardeia a rima nas paredes do quarto de uma pensão).

Beard, como escritora especialista em classicismo, explica todas as peculiaridades desse mundo, e nos traz outras explicações por trás das teorias mais aceitas, o que sempre nos instiga a pensar. No final o que fica de verdadeiro é um mistério, pois nunca saberemos a verdade, mas durante essa narrativa podemos viajar e nos sentir parte da comunidade de Pompeia e talvez até analisar a partir das especulações a nossa sociedade hoje, e como incrivelmente muitas coisas continuam iguais, e outras, sendo boas ou ruins, nem tanto.
 
Indico a leitura, não só para quem estuda ou trabalha na área da história, antropologia e ciências sociais, mas para quem curte histórias, já que é uma narrativa maravilhosamente construída pelos mínimos detalhes, e muito bem apresentada, com a linguagem técnica muito bem explicada, e que nos ensina lições antigas e nos passa a sensação de melancolia e de um “Nossa! Como queria poder ter visto isso. ”, algumas vezes.  

Obrigada Editora Record pelo envio do exemplar!
 

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