O livro Nas sombras do Estado Islâmico: confissões de uma arrependida de Sophie Kasiki é uma intrigante aventura da vida real que mistura religião, extremismo (de todos os lados, incluindo aà o ocidente), amor de uma mãe desesperada para salvar seu filho e de lutas pessoais aonde a própria mente da autora traz o sentimento de aprisionamento independente do local aonde ela se encontra.
A história se desenrola em vários lugares, para começar no Congo, com a autora recriando a sua infância e a morte de sua mãe, que trabalhava em asilo belga do Congo, a deixando órfã. Assim, ela vai morar com a irmã mais velha em Paris que vive com o marido e com o filho mais velho. É criada pela irmã com muitas turbulências emocionais e sempre sentiu vontade de fazer o bem, e de ajudar os outros, assim acaba encontrando, na vida adulta, a profissão de assistente social de uma casa de bairro (centro social para as famÃlias à margem da sociedade) em que entra em contato com o islamismo e com três jovens que decidem abandonar a França e ir lutar na jihad na SÃria, na capital do Estado Islâmico, Raka. O problema é que eles convencem Sophie, que se converteu ao Islã, a ir para a cidade de Raka com o seu filho de 4 anos junto. Em uma alucinada tentativa de voltar a França, Sophie faz todo possÃvel e impossÃvel para sair do lugar tenebroso em que se encontra.
Não consigo encontrar um fato isolado, dentro da galáxia de pequenos acontecimentos que compõe minha vida, que possa explicar tudo. O grande erro seria acusar a religião como causa única e suficiente. Converti-me ao islã, ou seja, sou uma ‘convertida’, como se diz, e abracei a nova religião com entusiasmo. Mas, seria fácil demais e inexato, dizer que foi por isso que parti.
Apesar da narrativa ser bem curta, essa história real é emocionante, e nos transporta para o lugar dos acontecimentos e nos faz viver na pele as sensações da narradora. Como uma história de narrativa pessoal, é bem diferente da leitura de um livro de ficção, por conta de um background social e cultural que é necessário para o entendimento da narrativa como um todo. Por isso aconselho paciência para aqueles que não curtem muito esse tipo de livro. Mas, posso dizer com certeza que todos têm a possibilidade de amar a obra, já que nos identificamos facilmente com as sensações vividas pela autora. Ela traz essa história pessoal a público com o objetivo de evitar que mais pessoas sejam convencidas e tragadas pelo “chamado” do Estado Islâmico.
Além disso, vemos também o ponto de vista daqueles que “traem” o próprio estilo de vida e voltam para contar. Que é muito diferente do que imaginamos, com problemas do próprio ocidente que se nega a acreditar que essas pessoas não farão mal algum, expondo dramaticamente a verdadeira intolerância religiosa e preconceito que nós mesmos estamos impondo neste mundo em guerra. Assim, é possÃvel compreender melhor a derrocada da humanidade de uma pessoa considerada até mesmo “gentil” para um soldado frio, calculista e sem escrúpulos, que faria de tudo para estar na linha de frente e morrer por uma causa que lhe “toca” no fundo da alma.
Esse livro é para todos aqueles interessados nos conflitos religiosos e polÃticos que vivemos nos dias de hoje, para aqueles que gostariam de entender melhor o que se passa na cabeça de um “desertor” da cultura ocidental e para quem gostaria de entender melhor o próprio Estado Islâmico e seus adeptos. Não é um livro fácil de se ler (chorei algumas vezes, rs), mas é uma narrativa necessária e elucidativa.
Ela esperava que não o machucassem e que o filho também não machucasse ninguém. Esperava que se mantivessem sempre juntos, os três amigos se protegendo mutuamente. Idriss e Souleymmane tomariam conta de Mohammed. Mas, ela não conseguia entender que ele pudesse ter feito algo assim. Andar armado? Juntar-se a um exército? Ir para a guerra? Era inimaginável. Ele, que sempre carregara as sacolas de compras. Ele, que protegia os menores. Ele, que era tão gentil!
Obrigada Best Seller pelo envio do exemplar!
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