O livro Hyde, escrito por Daniel Levine (primeiro romance do autor) e que chegou até mim pela Editora Record (muito obrigada pelo exemplar Editora Record! 1ª Edição - 2016), também editora que lançou aqui no Brasil o livro da minha resenha anterior “A Garota no Trem” da Paula Hawkins (se quiserem dar uma olhadinha), me chamou atenção principalmente pelo formato, já que, para quem ainda não leu O Médico e o Monstro ou O Estranho Caso de Dr. Jekyll e Mr. Hyde escrito por Robert Louis Stevenson, essa edição da Record é perfeita, pois a narrativa de Stevenson vem junto com a de Hyde do Levine (dois livros por um, né, quem não gosta, rs). Mas, aà estava o grande dilema da minha vida (dos leitores em geral, rs), já que não tinha lido ainda O Médico e o Monstro, qual das histórias leria primeiro? O incrÃvel é que antes da narrativa tem uma Introdução explicando TODO o processo de criação de Stevenson da narrativa, além de algumas observações entre as duas histórias. Isso me fez iniciar com o original de Stevenson, já que não estava entendendo as observações entre as duas (óbvio, rs). Recomendo, então, para quem não leu a narrativa original, ou não lembra muito bem dos detalhes da história, ler ela primeiro e depois ir para Hyde.
A história O Médico e o Monstro, é, como todos que já leram sabem, um clássico (por isso demoramos para ler, que eu sei, rs), muito criticado durante o tempo. Mas também, é cheio de lacunas deixadas para a imaginação, principalmente sobre a face perversa, Hyde. E com pontos de vistas principalmente de Jekyll (ao final) e do seu advogado e amigo confidente Mr. Utterson. Daniel Levine, transforma tudo, através dessas lacunas ele preenche a história original com a perspectiva de Hyde (do seu Hyde) e cria um romance quase inteiramente novo sobre os fatos da história de Stevenson. E acabou sendo incrÃvel.
Ao sair para a luz do sol, fiquei de prontidão, de certo modo esperando a luz tostar minha pele com um silvo de vapor. Mas ela me saudou como se eu fosse uma pessoa qualquer, seu calor estranho banhando meu rosto.
Para quem não conhece o original, a história é sobre um médico (acredito que principalmente psiquiatra) do séc. XIX (na narrativa original não há uma data e sim, o ano de 18--), que por alguma razão (desconhecida no original) acaba desenvolvendo múltiplas personalidades, Dr. Jekyll e Mr. Hyde, a segunda personalidade (Mr. Hyde) está misturada na mente de Jekyll, até que ele descobre uma forma de transformá-la em pessoa real, e fazê-la tomar seu corpo.

A primeira vez que ouvi falar sobre múltiplas personalidades, ou como descobri mais tarde doença chamada: transtorno dissociativo de identidade, foi no 1º episódio da segunda temporada (The Core of It) da série Lie to Me (disponÃvel no Netflix, sou viciada, e recomendo, rs). Na época achei tudo muito interessante e fui pesquisar mais sobre o assunto, descobrindo casos reais do transtorno, como o de Billy Milligan, que cometeu diversos crimes que não se lembrava de ter cometido. Ele foi diagnosticado com mais de 11 personalidades diferentes (se quiserem ler mais sobre isso, vejam esse link). Também para quem gosta de Doramas (dramas/novelas coreanas) existem dois que falam sobre o assunto: Hyde, Jekyll, and I e Kill me, Heal me (que tratam com bem mais leveza tudo isso e são lançamentos).
A narrativa de Levine é maravilhosa. Apesar de já sabermos o final pelo original, o preenchimento das lacunas que tanto querÃamos saber ficou perfeito, uma história se sobrepõe a outra. A forma que Levine descreve todos os mÃnimos detalhes da consciência de Hyde, de um jeito, que mostra um lado muito diferente do personagem original. A ideia é genial. E funciona muito bem com um thriller psicológico. Sempre nos traz muita reflexão sobre tudo o que pensamos, o que agimos, quem somos, o porquê de estarmos aqui. Quase uma crise existencial de Hyde (que acaba sendo nossa, rs). Há também muito suspense, e claro, um romance em dose dupla (pelas duas personalidades), mas um pouco doentio, agoniante e bem estranho, dos dois lados. Também, devo dizer, não é para os fracos, tem sangue, dor, agonia, tristeza, traumas terrÃveis e uma Inglaterra de época, que eu, nunca tinha lido desse jeito, mostrando cada entranha da cidade e principalmente do Soho, mostrando também as antagônicas diferenças entre as classes, e claro suas contradições. Mas o que mais me encantou foi realmente a forma com que o autor descreveu todas as emoções vividas por Jekyll e Hyde de uma perspectiva nova e aterrorizadora, mas que à s vezes, a partir das nossas especulações, se tornam sarcásticas e irônicas, rendendo algumas risadas (pelo menos para mim, será que é isso estranho? Rs). E, nossa, só as falas de Jekyll e Hyde (e um outro personagem que não posso falar – depois da leitura vocês adivinhem, ou melhor descubram, rs) estão sempre em itálico, e fiquei me perguntando se dava para fazer uma ligação disso com o lado psicológico da história, acho que sim (pensem nisso, rs).
Por esses e outros motivos, vale muito a pena ler até o final, já que temos uma surpresa, como em todos os thrillers psicológicos. Mas, já vou avisando que recomendo para aqueles que querem passar o tempo de leitura pensando, pois não é tão fácil fazer as ligações entre as duas narrativas, já que os detalhes é que importam nesse livro maravilhoso. Gosta de pensar, mas pensar mesmo? Gosta de terror, suspense e de um enredo e um romance, de certa forma, obscuros e nauseantes? Então vai fundo, que Hyde foi feito para você.
Penso no animal humano. Esse primata sem pelos, andando sob dois pés, vestindo sua roupa elaborada, enquanto luta pela sobrevivência. Enganamo-nos mutuamente, ah, sim. Engano, tortura, assassinato deliberado e, em alguns casos, com prazer. Outros animais vivem com medo e pavor de nós. O que nos torna tão especiais? A mente. O poder grotesco da mente humana.
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