Paula Hawkins alcançou seu primeiro grande romance de sucesso com A Garota no Trem, quem trouxe esse best-seller em 2015 foi a Editora Record. Um livro, que vou dizer, me chamou atenção quando comprei, a capa muito bem feita, e a sinopse prometendo um grande e intrigante thriller psicológico. No inÃcio da leitura gostei da forma com que a personagem principal entende o mundo a sua volta e como ela o analisa, mas com o passar das páginas, me desinteressei um pouco. Voltei a ler um tempo depois, mais confiante, já que por amigos fiquei sabendo que a leitura iria melhorar. E não me arrependo, talvez eu tenha lido poucos thrillers e não tenha percebido que tudo começa calmo, rs.
A história é sobre uma mulher, Rachel, que sempre pega o trem as 8h04min de Ashbury para Londres, a caminho do trabalho. Durante essas viagens de trem, Rachel se senta na janela e volta sua atenção para as pessoas que moram nas margens dos trilhos, inventando histórias de vida para elas. O casal, que apelida de Jess e Jason são perfeitos na sua imaginação. Mas eles são pessoas reais e como todos, acabam tendo problemas reais, então, a personagem principal, sendo sua observadora e tendo problemas que se ligam aos do casal, é puxada fortemente ao encontro destes, que por coincidência moram na mesma rua de seu ex-marido e sua nova esposa, que era sua amante. A questão é que Rachel enfrenta muitos problemas, como o alcoolismo e a depressão, devido a acontecimentos em sua vida (como a traição do marido), que são narrados ao longo da história.
No inÃcio, o livro me lembrou muito a série Jessica Jones do Netflix em parceria com a Marvel, claramente sem o contexto dos super-heróis e bem menos glamourosa, pois há todo um mistério sobre o que Rachel faz ou vê, de suas memórias, se elas são reais, ou se foram inventadas por ela, além da sua ansiedade e das suas tentativas falhas de melhorar as coisas. Além disso, há aquele ar meio sombrio, de que tem muito mais para ser entendido.
De vazio, eu entendo. Começo a achar que não há nada a se fazer para preenchê-lo. Foi o que percebi com as sessões de terapia: os buracos na sua vida são permanentes. É preciso crescer ao redor deles, como raÃzes de árvore ao redor do concreto; você se molda a partir das lacunas. Sei de tudo isso, mas não digo em voz alta, não agora.
Mas, no decorrer da narrativa, percebe-se a grande carga psicológica que existe para todas as pessoas envolvidas (principalmente o abuso psicológico), e pode-se fazer uma grande reflexão sobre o pré-julgamento que fazemos baseado na aparência dos outros, sobre o lugar da mulher na sociedade, sobre o drama das doenças psicológicas, e dos vÃcios de todos os tipos, que sempre tem um motivo (Rachel tem os seus).
A verdade é que o final é espantoso e existem várias reviravoltas na história, com cada dado novo que recebemos dos personagens, que são vÃvidos e com problemas que conseguimos nos relacionar. Sentimos cada dor, cada felicidade, cada evolução e cada triunfo deles neste suspense arrebatador, sempre torcendo para que nosso palpite dos acontecimentos esteja certo. Tanto é que sofremos com tudo na história (quem nunca? rs). Já que a narrativa é quase sempre em 1ª pessoa, o tempo todo muda a perspectiva dos acontecimentos, trazendo a visão de personagens diferentes sobre a história. Além da data e do momento da narrativa no dia (manhã, tarde e noite), introduzidos a cada capÃtulo (dica: prestem muito atenção nessas datas), que trazem um sentido cronológico ao texto. Também a linguagem moderna e a letra de um tamanho razoável, fazem a leitura mais fluida.
Uma leitura apaixonante, com muito suspense, muitos traumas e acontecimentos do passado, que querem ser escondidos. Uma história construÃda com louvor, nos deixando apreensivos até o último minuto, e nos tornando detetives junto com a personagem principal. Recomendo para aqueles que querem refletir sobre a vida, sobre as pessoas a nossa volta e principalmente sobre nossos preconceitos e emoções. Suspense, com um pouco de sangue, devo dizer, não é um livro para os fracos, rs.
Toda noite, ao voltar para casa, principalmente no inverno, eu costumava apertar o passo, dando uma olhada rápida para a direito só para garantir. Nunca havia ninguém lá – nem em nenhuma daquelas noites, nem hoje – e, ainda assim, travei ao olhar para aquela escuridão hoje de manhã, porque de repente me vi. Eu me vi alguns metros lá dentro, caÃda junto à parede, a cabeça entre as mãos, e tanto a cabeça quanto as mãos sujas de sangue.













